sábado, 10 de outubro de 2009

CONCLUSÕES DO 8º COLÓQUIO ANUAL DA LUSOFONIA EM BRAGANÇA 30 SET-3 OUT.º 2009

1. A partir do 5º Encontro Açoriano da Lusofonia, em março e abril de 2010, os colóquios passarão a adquirir uma nova numeração, totalizando os dos Açores e de Bragança, pelo que esse próximo encontro será denominado como o 13º Colóquio da Lusofonia. Em Outubro desse ano, em Bragança, terá lugar o 14º Colóquio.

2. Serão envidados esforços para levar ao Brasil (Santa Catarina) mais representantes de Bragança e Galiza além dos Açores e da comitiva oportunamente definida.

3. O Museu Virtual da Língua ou da Lusofonia arrancará em Outubro 2011, sendo coordenado pelos Colóquios da Lusofonia em cooperação com as três Academias e com o apoio da Câmara Municipal de Bragança que envidará esforços para o seu financiamento. A cidade de Bragança vai acolher, assim, um Museu da Língua Portuguesa, o segundo projeto do género, que se propõe contar a história da língua desde o primeiro documento escrito em galaico-português. O museu terá salas temáticas com a história da Língua Portuguesa no mundo, contada através da reprodução virtual de documentos. A Câmara de Bragança irá disponibilizar um espaço para o novo museu, que passará a ser também a sede dos Colóquios da Lusofonia. "Será um espaço virtual que resulta da adaptação do conceito do museu da língua que existe em São Paulo, no Brasil, utilizando as novas tecnologias para viajar, através de ecrãs, ao longo da história". O "Museu da Língua" dará também destaque aos dialetos minoritários da região de Bragança e à segunda língua oficial de Portugal, o Mirandês, falado em Trás-os-Montes. A história de Bragança estará também presente no novo espaço, que terá um complemento lúdico com jogos didáticos para despertar o interesse dos mais novos pela temática. Os promotores pretendem ainda convidar regularmente personalidades para falarem dos problemas da Língua Portuguesa. Inicialmente terá cinco módulos, a anunciar oportunamente, e tentar-se-á que o primeiro esteja terminado em outubro 2010. Irão ser constituídas, nos próximos meses, as equipas de trabalho para cada área temática e definição de conteúdos.

4. Foi firmado um protocolo com a Universidade do Minho para ministrar um Curso Breve de Estudos Açorianos. O programa curricular desse Curso está prestes a ser aprovado pelo Conselho Cientifico da Universidade do Minho para ali ser ministrado pela incansável colega Rosário Girão (33 horas presenciais, 11 sábados), que necessita agora de seis inscrições para que ele possa arrancar em Outubro de 2010 com a participação presencial do escritor Cristóvão de Aguiar, Professor Malaca Casteleiro e Chrys Chrystello. Solicitamos a todos os interessados que se inscrevam, escrevendo diretamente para giraodossantos@clix.pt ou rosariogirao@clix.pt a fim de podermos concretizar este nosso projeto

5. A Diciopédia Contrastiva da Lingua Portuguesa vai passar a estar disponível numa nova plataforma de fácil acesso para investigadores e público em geral, no endereço www.diciopedia.org pelo que oportunamente se darão as indicações necessárias a todos os que nela colaboram e aos que nela queiram vir a colaborar.

6. Os Colóquios da Lusofonia irão continuar a perseverar para a rápida introdução das alterações motivadas pelo 2º Protocolo Modificativo do Acordo Ortográfico em Portugal, congratulando-se com a publicação pela Porto Editora do Novo Vocabulário Unificado da Lingua Portuguesa da autoria do nosso patrono Professor Malaca Casteleiro e pelo qual estes Colóquios vinham pugnando há dois anos. O lançamento público desta obra será feito em Lisboa dia 14 de Outubro, depois de ter sido apresentado em Bragança e no seminário de Lexicologia da AGLP que teve lugar após os Colóquios de Lusofonia 2009.

7. Foi sugerido que entrássemos em contacto com as entidades da RAEM (Macau) para verificarmos da possibilidade de realizar um próximo colóquio naquele território chinês. O Professor Bechara vai encontrar-se dentro de dias (na Academia Brasileira de Letras e no Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro) com o Dr. Jorge Alberto da Conceição Hagedorn Rangel do Instituto Internacional de Macau[i] e comprometeu-se a torná-lo solidário com este projeto. As colegas de Macau presentes (Lurdes Escaleira e Perpétua Santos Silva) igualmente se prontificaram a estabelecer parcerias para tal.

8. Dada a dificuldade de organizarmos anualmente dois colóquios desta envergadura em moldes fixos, optou-se por fixar o de Bragança durante os próximos quatro anos na primeira semana de Outubro, como aliás vem acontecendo, e tornar os Encontros Açorianos da Lusofonia coincidentes com as duas semanas de férias da Páscoa (nos Açores) sendo este último, aquele que, de forma alternada, se realizará entre os Açores e o Resto do Mundo cumprindo a saga migratória açoriana.

9. Foram, igualmente, anunciadas as diligências tomadas pela colega EDMA SATAR em Maputo, Moçambique para ali se realizar o colóquio de 2010. A AGLP prontificou-se, igualmente, a receber os Colóquios no caso de não ser possível realizá-los em Moçambique na Páscoa de 2012.

10. Continuaremos a insistir com as colegas EDMA SATAR, HELENA LIMA AFONSO E ZAIDA PEREIRA para compilarem e posteriormente disponibilizarem, a breve prazo, nas páginas dos colóquios uma ligação para os Estudos de Crioulo já existentes criando uma base de dados dos mesmos a fim de facilitar o seu estudo e a sua institucionalização.

11. Foi posta a circular uma moção incentivando a criação de uma nova academia para obviar à inépcia demonstrada pelo atual órgão responsável (Academia das Ciências de Lisboa) apesar das solicitações feitas desde 2007 aos seus representantes Professores Adriano Moreira e Artur Anselmo, que estiveram presentes nas últimas três edições dos colóquios. Será criada, no seio dos Colóquios, uma comissão para estudar o assunto.

12. Nos próximos colóquios será incluída (subtema proposto pela AGLP) a temática Literaturas africanas de língua portuguesa

13. Será mantido o novo formato das Sessões de oradores e sessões paralelas, dado o êxito obtido na experimentação que ora se fez em Bragança

14. Vai-se debater com os escritores Cristóvão de Aguiar e Daniel de Sá a proposta de curso de Estudos Açorianos da colega Rosário Girão para apresentar à colega Rosa Madruga (coordenadora da UNISUL Santa Catarina, Brasil) a fim de se aferir da viabilidade de dar início ao curso em fevereiro de 2010.

15. Foi pedido ao escritor convidado de 2009 Cristóvão de Aguiar que se encarregasse formalmente de preparar um boletim regular de Estudos e Literatura de matriz açoriana a disponibilizar em formato pdf na nossa página www.lusofonias.net

16. Tendo em vista o arcabouço linguístico e cultural da língua portuguesa cantada nas suas várias formas (canções populares e folclóricas) e a importância da língua cantada nas sociedades dos séculos XX e XXI, o colega Álvaro Caretta propõe a inclusão da língua portuguesa cantada nas escolas secundárias e universidades, a fim de desenvolver a consciência para o valor da nossa música, visando o estudo e ensino da nossa língua portuguesa nas suas diversas expressões.

17. A cadeira de Estudos Transmontanos que não foi possível iniciar no Instituto Politécnico de Bragança nem na UTAD (Vila Real) vai fazer parte das atividades do futuro Museu da Língua em Bragança, em moldes a definir oportunamente.

18. Tal como no ano passado os colóquios não terminaram em Bragança mas antes se prolongaram com atividades organizadas pela AGLP. Deslocámo-nos a Santiago
de Compostela dia 5 para o 1º Seminário de Lexicologia da AGLP não só para
mostrar o nosso continuado apoio à novel academia como também para provar
que ela conta com o apoio das outras duas Academias e dos Colóquios da
Lusofonia que a ajudaram a nascer numa época conturbada relativamente à situação da língua portuguesa na Galiza. É de extrema importância manter estes vínculos ativos entre as organizações. A propósito do evento, com a presença de meia centena de pessoas, recorde-se o que o seu secretário geral Ângelo Cristóvão afirmou no seu termo:

Caros:
Gostava de transmitir-vos algumas reflexões sobre o Seminário de Lexicologia, realizado em 5 de outubro.

- Demonstramos, mais uma vez, a capacidade da sociedade civil para ultrapassar o quadro legal estabelecido, segundo o qual o galego é uma
língua regional espanhola, que não pode ultrapassar as fronteiras do reino.
- Recebemos o apoio oficial das academias brasileira e portuguesa, num
contexto de ataque brutal das instituições autonómicas contra o galego.
Ninguém poder dizer que chegaram a Santiago sem saber onde é que estavam.
Desdramatizar o discurso e a explicação da realidade galega é o contexto em
que portugueses e brasileiros poderão colaborar mais facilmente.
- O anúncio da inclusão do léxico galego no Vocabulário da Academia
Brasileira foi realizado por Evanildo Bechara, só depois da apresentação do
Vocabulário da Porto Editora, que realizou Malaca Casteleiro. Esta ordem
cronológica não foi casual. Se tivéssemos começado pelo Brasil, teríamos
perdido o apoio de Portugal. Os brasileiros percebem perfeitamente qual é a
nossa situação, e aceitam que isto tem de ser assim. As formas fazem parte
da mensagem.

- Todo o evento foi registado em vídeo, para posterior edição em DVD. No
intuito de aproveitar as sinergias, oferecemos ao PGLíngua uma colaboração
gratuita, consistente em utilizar o serviço de gravação de vídeo para
realizar várias entrevistas, que posteriormente serão emitidas no portal da
AGAL, e incluídas no nosso DVD. Os entrevistadores foram 2 redatores do PGL.
Os entrevistados: Martinho Montero (AGLP), Adriano Moreira, Artur Anselmo e
Malaca Casteleiro (ACL), Evanildo Bechara (ABL) e Chrys Chrystello
(Colóquios da Lusofonia). A intenção é emitir uma entrevista cada semana. Os
questionários foram preparados basicamente por mim, com correções de última hora dos entrevistadores.

- O Protocolo de Colaboração e Apoio Mútuo entre a AGLP e a Universidade
Aberta, assinando como testemunhas Adriano Moreira e Evanildo Bechara,
abre-nos grandes possibilidades de relação institucional, de explicação da
questão galega em Portugal, e de fomento do ensino superior não-presencial,
na nossa língua, na Galiza. Para isto será preciso desenvolver atividades
concretas, como a elaboração de um tríptico explicativo
do processo de
admissão dos alunos na UAb. O Secretário da Associação, José Tubio, já tem
pronta a informação, que em breve será difundida.

- Acabo por aqui, finalmente, dizendo que todo o dinheiro e esforço pessoal
dedicado nestes 3 últimos anos, com a criação da Associação, a AGLP, sessão
inaugural, publicações, viagens, colóquios e outras atividades, deve ser
entendido como um investimento que, ao dia de hoje, começa a dar um alto
rendimento à Galiza. É em termos de país que temos de pensar a associação,
assim como a fundação que iremos criar nos próximos meses.
Ângelo Cristóvão

***

Colóquios da Lusofonia/Encontros Açorianos da Lusofonia,
O Presidente da Comissão Executiva,
Dr J. CHRYS CHRYSTELLO,
A NOSSA DIVISA É NÃO PROMETEMOS, FAZEMOS
Telefone: (351) 296 446940, Telemóvel: (+ 351) 91 9287816 / 91 6755675
E-fax (E-mail fax): + (00) 1 630 563 1902
E-mail: coloquioslusofonia@gmail.com , coloquiolusofonia@gmail.com ; lusofoniazores@gmail.com ,
lusofonia@sapo.pt, lusofoniazores@sapo.pt
8º Colóquio Anual da Lusofonia 2009 http://www.lusofonias.net/lusofonia%202009/index.htm
5º Encontro Açoriano 2010 (Sta Catarina Brasil) http://www.lusofonias.net/encontros%202010/index.htm
* Todos os colóquios: http://www.lusofonias.net
* Diciopédia Contrastiva dos Colóquios: http://www.lusofonias.net/diciopedia/index.html
* Tudo sobre o Acordo Ortográfico http://www.lusofonias.net/paginaprincipal.htm
PATRONOS: MALACA CASTELEIRO E EVANILDO BECHARA E
* APOIOS
Câmara Municipal de Bragança /Câmara Municipal da Lagoa (Açores)
* Protocolos e Parcerias:
GOVERNO ESTADUAL DE SANTA CATARINA
ACADEMIA GALEGA DA LÍNGUA PORTUGUESA
UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA, BRASIL (UNISUL)
UNIVERSIDADE MACKENZIE DE SÃO PAULO, BRASIL
ESE, INSTITUTO POLITÉCNICO DE SETÚBAL
ESE, INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANÇA
ACADEMIA DE LETRAS DE BRASÍLIA



[i]

sábado, 15 de agosto de 2009

TRABALHO BEM REALIZADO - Por Emerson Monteiro

Considerações a propósito do álbum “A Busca da Perfeição”, de Dihelson Mendonça.

Dizer que a vida se mostra na arte representa contar da força do artista a movimentar lá fora a paixão que lhe corre nas veias e sai intensa pelas estradas dos lugares, no prumo dos outros seres, ânsia infinita de realizar o poder esplendoroso do mais perfeito de dentro de si nas praças. Expandir o senso da luz nos outros corações. Partilhar as maravilhas do instante em gestos circunstanciosos, magnânimos. Lembrar aos demais que há vertentes puras ainda inexploradas no mistério do existir da alma de cada gente.
Vem nestas expressões o gosto da fala no trabalho posto a lume pelo artista caririense Dihelson Mendonça, seteinstrumentista que, assim, lavra mais um tento da história regional de trabalhos esmerados, nos moldes da contemporânea tecnologia de som e imagem, edição correta da Expressão Gráfica, de Fortaleza, em alto padrão, reunindo nomes festejados das comunicações, letras e artes visuais deste tempo de agora.
Trata-se de bloco de poesias declamadas por vozes conhecidas, próprias, coloquiais, seguidas ao piano por Dihelson e outros músicos, num livro ilustrado com belas fotografias e letras intercaladas, poemas de cunho intimista, de autores inspirados na propulsão dos acordes.
Qual espetáculo que agrega, em amostra saborosa, o universo dos artistas numa proposta efetiva, na boa hora de suas caminhadas em demanda do endereço da eterna Perfeição, o Santo Graal do absoluto desejo, acercando-se do trato de amigos e peças, colhidos ao sabor das situações de procura, brotadas no enorme quebra-cabeça da existência pelos páramos da invenção de letras e acordes de natureza especial.
Nisso, Dihelson contou de perto com os préstimos bem sucedidos de Reginaldo Farias, no projeto gráfico, e Pachelly Jamacaru, na elaboração fotográfica. Na trilha sonora, os instrumentistas somam talentos e estabelecem as linhas infinitas da busca, caravana que se desloca ao ritmo dessa viagem através do território mágico da criação, de cores e tons, nave a fluir na brisa dos espaços do sonho. Espécie de novidade que alegra ao chegar em cada porto.
A qualidade do produto merece destaque, vista a clareza visual, musical e literária.
Nosso mundo interiorano do sertão guarda, por tudo isso, patrimônio inestimável de cultura digno de abordagem mais justa, considerada nos trabalhos do campo acadêmico, enfoque de nomes e ocasiões que aqui nascem, crescem, manifestam seus atributos, marcando o definitivo do manancial de vitalidade que alimenta o panorama do global patrimônio comum da espécie humana. Eis disso um novo exemplo neste livro musical poético.
O patrocínio da obra coube ao Centro Cultural Banco do Nordeste, dentro de sua política de valorizar a cultura e desvendar possibilidades.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

DE LUA DE MEL COM A ILUSÃO - Por Emerson Monteiro

Os ditos populares economizam um tanto de fosfato às cabeças pensantes, no correr das literaturas, trazendo em linha reta o que, por vezes, acostaria largas demandas ao querer expressar a sabedoria das palavras. Lembra a propósito o brocardo de que “depois das tempestades vem a bonança”. Tempestades que também dão-se longas, em alto mar, de sete, nove dias; de anos secos; anos de guerras, angústia; ditaduras, exceção, qual no caso brasileiro dos anos de chumbo, duas décadas e meia de astenia e nevoeiro, de onde saíram os líderes atuais, ferrenhos defensores dos seus feudos e donatários ambiciosos dos parlamentos e palácios, ilegítimos dominadores do peso do ouro e da impunidade nacional.
Em épocas escuras da história, momentos de lapsos cruéis, guerras mundiais, depressões, desastres, estados de sítio, guerras civis, idade média, revoluções, êxodos, guerras frias, exílios, imperou o ânimo de que tudo passaria num piscar de olhos, e dias melhores se instalariam, para nunca mais retornar o tempo do negrume, tangido pelos clarões de novos sonhos.
Isso marcou sobremaneira o século XX. Exemplos clássicos são enumerados com fartura, uns maiores, outros menores, que sobejam nos compêndios. Grandes guerras mundiais. Depressão de 29. Guerra Civil Espanhola. Guerra da Coréia. Do Vietnam. Seis Dias. Golfo. Afeganistão. Iraque. Etc. Cicatrizes vincam fundo a geopolítica, no tropel da civilização, desde os remotos antecedentes das cavernas, dose certa de interpretar o organismo afetado na mesma proporção dos haustos de progressos e conquistas das oportunidades sociais da raça lutadora.
Quando se afigurou que o pêndulo permaneceria sem grandes balanços após a queda do Muro de Berlim, no julgar do Ocidente vitorioso, o povo árabe chegava trazendo a conta do desconforto imposto na divisão da Palestina perante o retorno do povo judeu, dali ausente desde a última diáspora.
Tais movimentos de tropas, canhões, navios, aviões, sacudiriam Europa, Ásia, Oceania, deixando de fora pontos particulares de outras áreas, nesses cem anos de aventura. O continente africano, saco de pancadas dos brancos, quase nunca escapou dos desmandos tempestuosos e seus imperialismos sucessivos. As Américas ensaiaram os episódios armados de Cuba, Granada, Panamá, Malvinas, Nicarágua, Haiti e Colômbia, além de algumas escaramuças entre Peru e Equador e os focos revolucionários na Bolívia, e a Guerrilha do Araguaia, no Brasil, anos 70. Já em dias atuais, nota-se o agravamento de ações táticas na Colômbia, repudiadas pelos países vizinhos, o que põe nos lábios travos de apreensão, conquanto relativa calma ainda existe nesse mundo de cá, mantido abaixo da linha do subdesenvolvimento emergencial, próximo dos Estados Unidos, ricos e poderosos.
Houve, por isso, um tempo em que se pensou andar livre das outras indagações ácidas do restante do universo mundial, onde o fator da guerra restringir-se-ia ao quadro asséptico televisivo e que a paz reinaria altaneira nessa zona de puder, fruto da bonança que viera. Há que trabalhar, entretanto, os homens antes de julgar-se isento de risco, invés de adormecer bem cedo nos cálidos braços da ilusão.

sábado, 25 de julho de 2009

ESTILHAÇOS - Por Emerson Monteiro

Lembro como se fosse ontem meu primeiro dia no Banco do Brasil, na agência de Brejo Santo, Ceará. Era 27 de junho de 1967, uma terça-feira. Chegara no dia anterior para a posse. Meu pai fora de tarde me levar, na mesma pick-up Chevrolet em que eu depois aprenderia a dirigir. Morávamos em Crato. Cobríramos a distância em torno de 90km por caminhos de terra, inclusive na BR-116, porquanto naquele tempo havia asfalto só até Barbalha. José Ferreira, cunhado de minha mãe, casado com tia Nailée, me receberia em sua casa, defronte do Brejo Santo União Clube, e me hospedaria durante os quatro anos em que ali permaneceria.
O expediente começava às 13h. Sob uma árvore da longa praça principal da cidade, enquanto aguardava abrirem as portas da agência, conheci João Batista Carvalho, um outro do mesmo concurso e que se apresentaria como eu, para naquele dia também iniciar sua jornada profissional. Ambos trajávamos camisa branca de manga longa e gravata no pescoço. Dois precários (bancários novos, assim denominados pelos colegas veteranos).
Desde então testemunharia aquele período cheio de contradições, no mundo contemporâneo em convulsão, do trecho entre Brejo Santo e Crato; apenas em raros fins de semana aquietava canto no lugar do trabalho. Nas sextas-feiras de tarde, ou começo de noite, arrumava numa pequena bolsa alguns pertences e seguia para a estrada em busca de transporte. Deixara em Crato história rica de sonhos e relacionamentos. Gostava de cinema, bares, festas, passeios ao pé da serra e dos meus familiares, namoradas, etc.
Brejo Santo possuía seus atrativos, porém o peso dos sentimentos telúricos cratenses me arrastava de volta ao meu segundo berço, aonde chegara com quatro anos, em 1953. Sempre nutri pelo Crato uma quase paixão, fascinado por sua moldura de serras, as encostas do Lameiro em longas caminhadas a pé, o barro branco a colar na pele, bananeiras, pássaros, frutas doces, belas morenas; suas praças, sua gente, a água saborosa, a efervescência cultural, a política estudantil, informação vinda de fora pelas livrarias e bancas de revistas; o Jornal A Ação, que produzia com Vicelmo, Pedro Antônio, Armando Rafael, Huberto Cabral e Padre Honor, por mais de ano, com boa repercussão na comunidade; o Jogral Pasárgada, que fundara com outros seis jovens, no Colégio Diocesano, e sua larga demanda de apresentações.
Lembro, no entanto, de entrosamentos valiosos que estabeleci em Brejo Santo, tanto junto aos colegas do Banco, na maioria de outras localidades, quanto junto aos naturais do município, gente de reconhecida hospitalidade, laboriosa e de senso de realização, haja vista o progresso que, nos dias atuais, lhe movimenta e destaca no elenco das comunas interioranas, naquela fase só de modestas proporções.
Nessas pessoas especiais de quem preservo lembranças benfazejas, José Lirismar Macedo ocupa espaço próprio. Dada sua formação de radialista que vivera em centros maiores e trabalhara em importantes emissoras, Lirismar guardou consigo vivências que bem nutriram a nossa aproximação. Por seu intermédio, conheci e passei a admirar autores exponenciais da música brasileira e da literatura universal.
Ele despertou meu gosto por figuras inigualáveis tipo João Gilberto, Carlos Lira, Dorival Caymmi, Tom Jobim e outros, sobretudo da bossa nova, no âmbito musical; na literatura, dada influência sua conheci importantes obras, quais Os velhos marinheiros, de Jorge Amado; e Narciso e Goldmund, de Hermann Hesse, peças chave de minha formação, no meio de outras mais; e autores como o mineiro Fernando Sabino, para citar alguns poucos e trazer à tona poucos dos detalhes de nossas agradáveis conversações.
Nos finais explosivos dos anos 60, época demolidora e definidora dos rumos da história recente, ao meu lado, para compartilhar das minhas apreensões de resto de adolescência, havia a personalidade marcante deste amigo, o qual permanece no crivo fiel do meu reconhecimento em preito de notável consideração.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Perfil de Patativa do Assaré

Dimas Macedo

Nasci em 1956, na região Centro-Sul do Ceará, quase em confluência com o Cariri cearense e à relativa distância da cidade de Assaré, terra natal de Patativa. Sou produto, portanto, do grande sertão e acho, sinceramente, que fui ungido pelo signo que marcou a estréia de dois gigantes da literatura brasileira do século precedente.
1956, não podemos esquecer, é o ano da publicação de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, e de Inspiração Nordestina, de Patativa do Assaré. O que une estes dois escritores e o que os consagra é a originalidade com que recriaram, com linguagem nova, a ciranda das palavras, a partir da memória e da oralidade, valores com os quais o sertão sempre se reveste.
Se Riobaldo constitui o idioma poemático de Rosa e o engenho da sua versão encantatória do mundo, Patativa do Assaré é, ele próprio, um conjunto de engenhos e personas e de representações pragmáticas que empresta voz aos excluídos: um Riobaldo castigado pela inclemência das secas, a lapidar o ouro das palavras e a reconstruir o chão da esperança.
Assim como o autor de Sagarana, Patativa do Assaré inventou uma linguagem e um estilo literário próprios e criou um dialeto linguístico de raízes predominantementes sertanejas, ligadas à oralidade e ao cancioneiro, lembrando, neste ponto, a constituição da língua brasileira, fundada por José de Alencar. E nisto, com certeza, reside a genialidade múltipla e singular da sua produção artesanal.
Patativa é, a seu turno, a encarnação viva do sertão, a palavra enquanto instrumento de denúncia, a significação sinfônica do silêncio, a oralidade que mapeia e ordena a literatura e a gramática que se fazem, por fim, transmutadas ao campo da escrita.
Conta o poeta Patativa que, aos oito anos, ouvindo a melodia e o gorgeio dos pássaros, despertou definitivamente para os grandes sentidos da palavra e da sua existência no mundo, pois que a natureza possui uma lei eterna e infalível e que aos deuses e poetas é facultada a criação enquanto princípio de interpretação de todas as coisas existentes.
O homem, com certeza, não é grande pela sua erudição ou pela sua razão ou pela capacidade de domínio com que enfrenta as convenções e se adapta à liturgia do poder. Ele é eterno, ao contrário, pela fundação da sua verdade pessoal e pela formação do seu mito face aos desafios da realidade que lhe é circundante.
Se Rosa deu voz a Riobaldo e Riobaldo deu voz ao sertão dos tangedores de gado e bandoleiros do Meridional, Patativa do Assaré falou, com destemor e bravura, de homens e mulheres imantados ao chão do latifúndio e excluídos do processo político e social.
Não foi, como pensam certos setores da cultura livresca e acadêmica, um poeta ingênuo e apartado dos valores da língua e da gramática. Estudou manuais de versificação, soube aceitar a cegueira completa de um olho, aos cinco anos de idade, como sinal do destino ou da predestinação que faria dele uma espécie de Camões sertanejo ou, melhor dizendo, um Homero do semi-árido nordestino.
Em Castro Alves viu a expressão maior da poesia do Brasil. Apaixonou-se, desde cedo, pelo social. Tornou-se, com o tempo, um homem destemido e exasperadamente verdadeiro e sincero. Proclamou a verdade e a justiça como paradigmas. Foi atingido pela repressão e a censura. Foi detido por questionar, em versos de bom feitio literário, a legitimidade de certo gestor da sua terra. E foi um defensor exaltado da poesia como valor maior da sua passagem entre nós. Fez da denúncia o seu apostolado e dos seus recursos vocais e estilísticos a expressão maior do seu alto poder de criação.
Foi um prodigioso memorialista e um político sutil e maneiroso das reinvidicações da cearensidade e da nordestinidade sertanejas. Lutou pela Anistia e as Diretas, opôs-se ao poder oficial, e apoiou, no Ceará, a luta pela modernidade da política e do governo, fazendo, por fim, de Assaré, o maior e o mais astucioso atalho do sertão.
Memorizou e fez a melodia de quase uma dezena de poemas que foram musicados e que se tornaram bastante conhecidos no Brasil. Gravou, com a sua voz de passarinho, uma meia dúzia de discos e CDs. E se fez partícipe, como arranjador ou letrista, de outros cinquenta discos e compactos. Foi ator de novela e de cinema, declamador da radiofonia, cantador de viola, cordelista, sonetista e improvisador de apurada técnica literária.
Sobre ele foram escritos diversos livros e opúsculos e, bem assim, teve a sua obra estudada em variadas teses e ensaios. Mas Patativa, é certo, apesar de conhecer diversos estados do Brasil, sempre viveu em Assaré, onde nasceu aos 5 de março de 1909 e onde faleceu aos 8 de julho de 2002.
Teve não mais que quatro meses de escolaridade. Sobreviveu do plantio de grãos e da lavoura da terra. Sempre botou roças no inverno e, nos anos de seca, passou necessidades e agruras e militou, durante toda a vida, em soberano estado de pobreza. Quando largou a viola, em 1962, os emblemas da voz e da palavra ritmada passaram a ser o ganha-pão.
Não cantou os seus males pessoais, nem as suas desditas, nem o seu penar. E não vangloriou a sua condição de mito ou poeta de projeção nacional.
Rejeitado pela cultura letrada da Academia, tornou-se, em Fortaleza, nome de um Centro Acadêmico de uma Faculdade de Letras, no contexto da UFC. O seu nome não consta nos compêndios oficiais da literatura cearense, mas o seu cânon é um dos mais apreciados do Brasil. É um dos poetas que mais vendem livros entre nós, ao lado, talvez, de Castro Alvos e de Drummond. A Editora Hedra, de São Paulo, já republicou quase todos os seus livros. E a Editora Vozes, de Petrópolis, já reeditou uma quinzena de vezes o seu Cante Lá Que Eu Canto Cá, com milhares de exemplares vendidos em todos os recantos do Brasil.
A Academia Cearense de Letras não o elegeu para os seus quadros e o teve sempre na linha da poesia popular, julgada, pelos homens do fardão acadêmico, de extração inferior. As Universidades cearenses, inicialmente e durante toda a sua vida, se mantiveram longe do seu nome; mas, quando ele passou a ser traduzido e estudado em Universidades francesas e inglesas, resolveram lhe conferir honras acadêmicas. Se tornou Doutor Honoris Causa em quatro dessas instituições. Mas nesta ordem, necessariamente: primeiro os leitores, em seguida a mídia, depois as medalhas e o coroamento oficial e, por último, a distribuição das láureas acadêmicas.
Patativa, no entanto, é muito maior do que isto. É um gigante das letras e um grande poeta da tradição popular ocidental. A sua poesia se impõe. A sua expressão cultural sempre se levanta. E a sua melodia é a costura precisa com que ele se anuncia músico. E expõe a sua condição de oráculo. É o arauto maior do nosso povo e a síntese de tudo o que veio antes dele, em termos de cultura sertaneja e de representação dos excluídos que nunca poderam falar.
Antônio Gonçalves da Silva é o seu nome. O lugar em que nasceu chama-se Serra de Santana, a dezoito quilometros do centro de Assaré. Seus pais eram agricultores. Viviam do plantio e da lavoura da terra. E assim também seus irmãos e seus familiares. Casou-se com uma parenta, dona Belarmina Paes Cidrão, e tiveram, em comum, uma boa ninhada de filhos.
Aos vinte anos, levado por um primo, fez uma viagem ao Estado do Pará, onde viveu de cantorias e arribações, sendo, pelo folclorista cearense, José Carvalho de Brito, ali residente, cognominado de Patativa. Brito o devolveu ao Ceará, com carta de apresentação a Juvenal Galeno. Foi aplaudido em Fortaleza, mas o destino o levou de volta para o sertão do Ceará.
Recolheu-se na Serra de Santana e em Assaré entre 1930 e 1945, aproximadamente. Seu nome se espalhou pela serra e pelo vale, ganhou o sertão dos Inhamuns e desceu soberano pelas águas mansas do rio Jaguaribe. Cantou, de viola em punho, em cidades vizinhas e adotou, como pseudônimo, aquele pelo qual se tornou universalmente conhecido – Patativa do Assaré, tamanha a revoada de Patativas, nessa época, por todo o Ceará.
Em 1955, foi ouvido por um velho e bom intelectual do Ceará, radicado no Rio, José Arraes de Alencar, quando declamava, na Rádio Araripe do Crato, os seus poemas de expressivo gosto musical. Nasceu, a partir deste fato, o poeta com direito a livro publicado. Inspiração Nordestina, de 1956, é, portanto, o seu primeiro livro de poemas.
O segundo viria em 1970. Não um livro autoral do próprio Patativa, mas um conjunto de poemas organizado pelo folclorista J. de Figueiredo Filho – Patativa do Assaré: Novos Poemas Comentados.
Em 1978 vem a lume o seu livro mais conhecido – Cante Lá Que Eu Canto Cá, publicado pela Editora Vozes, de Petrópolis, em convênio com a Fundação Padre Ibiapina, do Crato, com apresentações de Plácido Cidade Nuvens e do Padre Francisco Salatiel de Alencar.
Ispinho e Fulô seria a sua próxima coletânea de poemas, organizada por Rosemberg Cariri e publicada em 1988, com apresentação e estudo-reportagem do próprio Rosemberg, que produziu, sobre o poeta, documentários importantes no campo das artes visuais.
O que veio em seguida, em matéria de livros, está condensado nos seguintes títulos: Aqui Tem Coisa, publicado em 1994, pela Secretaria de Cultura do Estado, e Cordéis (Fortaleza, Editora da UFC, 1999), reunião, em único volume, do básico que foi produzido nessa área pelo grande poeta cearense. Devemos a Gilmar de Carvalho, o maior estudioso da sua vida e da sua produção, a organização desse livro-monumento, que foi adotado, como livro-texto, em vestibulares da UFC.
A fortuna crítica de Patativa do Assaré é imensa e diversificada. Existem altos e baixos nessa produção. Aponto o volume de Plácido Cidade Nuvens – Patativa do Assaré e o Universo Fascinante do Sertão (1995) como ponto de partida, pois é um livro de comentários fabulosos e impressionistas onde se ouve a voz do coração. O livro segue a tradição dos estudos caririenses sobre o poeta, a começar por J. de Figueiredo Filho (1970) e que tem prosseguimento com Francisco de Assis Brito, com seu conjunto de ensaios – O Metapoema em Patativa do Assaré: Uma Introdução ao Pensamento Literário do Poeta (1984).
Outro roteiro interessante sobre Patativa é o que se acha condensado em O Poeta do Povo: Vida e Obra de Patativa do Assaré, de autoria de Assis Ângelo, acompanhado de um CD com poemas declamados pelo poeta (São Paulo, CPC-Umes, 1999). Este livro, de formato gráfico belíssimo, pode e deve ser lido paralelamente com o suporte da antologia de Sylvie Debs – Patativa do Assaré: Uma Voz do Nordeste (São Paulo, Editora Hedra, 2000), no âmbito da coleção Biblioteca de Cordel e cujo estudo que a antecede eu igualmente recomendo.
Gilmar de Carvalho publicou a melhor e a mais extensa entrevista concedida pelo poeta – Patativa Poeta Pássaro do Assaré (2000) e é autor do eruditíssimo e bem concatenado livro de ensaios e estudos – Patativa do Assaré: Pássaro Liberto, editado pelo Museu do Ceará, em 2002. Organizou também a melhor e a mais criteriosa antologia poética do autor, publicada em Fortaleza, em 2001, pelas Ediçoes Demócrito Rocha. Em 2000 deu à lume um precioso livro de bolso, contendo uma síntese didática e pedagógica em torno da vida e da obra do poeta.
Tadeu Feitosa, professor da UFC e jornalista, é o organizador do bonito álbum de textos e fotografias do poeta e do seu entorno sertanejo, publicado pela Editora Escrituras de São Paulo, em 2001. E é autor, por igual, do ensaio crítico-interpretativo do poeta, intitulado Patativa do Assaré: A Trajetória de um Canto, também da Editora Escrituras (2005), que é, no caso, a sua tese de Doutorado em Sociologia.
O livro de Cláudio Henrique Sales Andrade, As Razões da Emoção: Capítulos de uma Poética Sertaneja (Fortaleza, Editora da UFC, 2004), é o resultado de uma Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Trata-se de um ensaio instigante e muito bem fundamentado em torno da poética de Patativa e da sua grande autenticidade. Uma leitura crítica, por assim dizer, tecida com as luzes da razão e da sensibilidade, acompanhada de uma pesquisa de campo que nos encanta com a sua riqueza. Um livro para ser lido e intuido, pensado e degustado como todas as boas iguarias que somente o sertão sabe oferecer.
A despeito das reclamações de Gilmar de Carvalho, de que o poeta foi esquecido pelos reelaboradores da nossa historiografia literária, alguns passos, pelo menos, foram dados neste campo: Oswald Barroso e Alexandre Barbalho incluíram Patativa na antologia – Letras ao Sol (Fortaleza, Edições Demócrito Rocha, 1998), o que já é um avanço.
Em 2001, Patativa viria a figurar na coletânea – Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, organizada por José Nêumane Pinto e publicada pela Geração Editorial, de São Paulo. E em 2006, passou a fazer parte da Coleção Os Melhores Poemas, da Editora Global, também de São Paulo, o que já é uma consagração. A antologia, organizada por Cláudio Portela, é uma das mais volumosas dessa coleção, e é antecedida de uma introdução bastante apressada e resumida, mas o roteiro de fontes, no final do volume, é razoavelmente bem pesquisado, apesar da confusão metodológica em que se enreda o organizador, que foi prejudicado, acredito, pelo suporte técnico e revisional da Editora.
Antes, em 1989, no meu livro A Metáfora do Sol, no âmbito do ensaio - “Sobre a Formação das Letras Cearenses” - , eu já havia, pioneiramente, arrolado o poeta Patativa qual um nome emblemático da literatura que se produziu no Ceará, isto é, da literatura cearense tomada a partir da sua evolução e abrangência histórica.
Ali divisei em Patativa a grande voz social da poesia cearense e também me referi à ressonância nacional da sua poesia. E registrei, ademais, que os seus livros “são atestados inequívocos da afirmação de um poeta de quem todo o Ceará se orgulha e em cuja obra o Ceará se vê também retratado”.
Por fim, faço minha as palavras de Gilmar de Carvalho, no sentido de que “Patativa do Assaré é a grande voz da poesia do Brasil”, não sei se “de todos os tempos”, mas, com certeza, a voz mais legítima, a mais expressiva e aquela em que a verdade e a justiça, a língua e a cultura melhor se encontram, em busca de um sentido novo para a identidade mais profunda do Brasil. Refiro-me ao Brasil que as elites tentaram dizimar mas nunca conseguiram, porque não somos, em essência, um Estado sem nação, e porque a nação é o pluralismo de suas etnias e o somatório das suas diferenças.

Dimas Macedo
dim.macedo@hotmail.com

domingo, 28 de junho de 2009

No reino da informática

Emerson Monteiro

No filme 2001: Uma odisséia no espaço, o computador de bordo (protótipo de máquina inteligente (Hal 9000, abreviatura de Hardware Abstract Layer, ou Camada de Abstração de Hardware) de uma nave especial resolve, de iniciativa própria, confrontar seus operadores, no que, ao ser descoberto e desligado, antes elimina um dos dois tripulantes.
A propósito dessa película famosa de Stanley Kubrick, em face do acidente momentoso do voo 447, da Air France, percurso Rio de Janeiro - Paris, ao custo de mais duas centenas de vidas, a humanidade presencia hipótese semelhante, de máquina que quebra a linha do resultado previsto, porquanto uma possível pane dos computadores de bordo da aeronave, precedente dos mais perigosos, acha-se no meio das conjecturas que deram causa à ocorrência.
No caso, a possibilidade de falha humana não se descarta, contudo a falha mecânica, ou eletroeletrônica, merece urgente consideração. Enquanto isto, milhares de aviões, a todo instante, alimentados pelos dados e circuitos de tais preciosidades da técnica, circulam o alto dos céus, dentro de condições idênticas às do fatídico voo.
E como abordar esse personagem indispensável do cenário contemporâneo, computador, a onisciência da informática, que tomou o lugar das limitações humanas? Aonde chega o antigo projeto da liberdade, demanda dos sonhos inúmeros da multidão laboriosa?Isso traz à baila alguma abordagem quanto ao domínio da máquina sobre o ser humano, recorrência da ficção científica desde as primeiras horas da cibernética.
Os comuns adoradores da oitava maravilha tecnológica bem que reconhecem, as melhores máquinas tendem a desobedecer (não por maldade, num juízo de valor) às leis da robótica e, frias, sofisticadas, imperam no mundo percentual dos riscos mínimos inesperados, haja vista série de fatores, porquanto perfeição absoluta ainda inexiste, nas variáveis da ciência e da técnica. Por refinadas que se proponham peças e equipamentos, margem inelutável de erro persiste, no horizonte do provável. Os chamados paus das máquinas vez por outra impõeem graves danos às corporações, mais dia, menos dia, conclusão salutar, devido à exaustão dos materiais, às condições atmosféricas, ao inesperado seqüencial do desenvolvimento dos sistemas, dentre outros, e à ação do homem, seu genial criador.Visto quando na terra, vá lá que se possam reparar os impasses. Contudo nas alturas ou nas profundezas oceânicas, implicariam noutras interpretações e sequelas por vezes drásticas.
De tanto ceder território a esse império das máquinas, a história demonstra assim o grau da dependência extrema da civilização a geringonças, no altar do fetichismo, o que reduz as margens da segurança de todo o esforço de geração à cômoda opção de rendição total à inconsciência. A submissão de tais pressupostos conduzirá a sociedade a um comando central (ao Grande Irmão, de George Orwell), ou significará o início da jornada coletiva em prol da consciência clara do que se fará da fabulosa produção capitalista dos objetos industriais.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Um apóstolo do bem

Emerson Monteiro

Através do noticiário da noite, neste 15 de junho de 2009, soube do desaparecimento do Dr. Silas Munguba, médico amazonense radicado no Ceará, que dedicou o melhor de seus dias ao tratamento dos dependentes de drogas, em Fortaleza, por meio da instituição Desafio Jovem, clínica especializada que criou e manteve durante 35 anos.
Algumas vezes o visitei na sede do Desafio, à Avenida Dedé Brasil, na capital do Estado. Ali ouvi um tanto a respeito dos métodos de tratamento e orientação que utilizava e desenvolvia. Certa feita, assisti, pela TV Ceará, a uma longa entrevista dele, quando contava de suas experiências bem sucedidas na cura de centenas e centenas de jovens. Sábio e persistente, atravessou com denodo crises financeiras sérias para dar andamento ao trabalho empreendido sem o patrocínio de terceiros.
Ouve-se dizer, os mais exaltados, que a nossa humanidade recende a maldade, que maioria incontável de gente apenas quer usufruir o prazer material, a riqueza, a fama e os valores negativos da insossa vaidade. Execram as pessoas humanas indiferentes e citam como base os políticos pilantras, que dilapidam o patrimônio público em favor pessoal e dos cúmplices, indiferentes à multidão sofredora.
No entanto existe a versão contrária de que no mundo habitam heróis anônimos que mantêm a ordem dos acontecimentos. Não contássemos com esses e a ordem quebrar-se-ia, o caos tomaria de conta da sociedade e de tudo.
Creio nisso, nos que, de jeito solidário, silencioso, elabora os dias na senda do amor e de realizações de comum desconhecidas da mídia sensacionalista.
Em lugares os mais afastados, rincões distantes das luzes dos holofotes e de festas desvairadas, emergências de hospitais produzem assistência constante, nas madrugadas, e os abrigos da velhice relegada ao segundo plano permitem sobrevidas, em redutos abandonados pelos poderosos, líderes abnegados e prontos ao serviço da caridade, ao amor em ação, firmes e desinteressados de frutos particulares. Tais exemplos de bravura realizam obras imensas em prol de milhões, a preservar a continuidade perene da bondade.
Uma perda considerável sofrem, assim, as lideranças cearenses que se dedicam aos cuidados de nossa juventude.
Dr. Silas Munguba retrata um desses testemunhos luminares da doutrina de Jesus, que prega coerência entre o que se estuda e pratica, demonstração viva na familiar e no ambiente comunitário. Agora chega o momento do galardão conquistado ao salvar almas na vitória contra o vício. Um minuto de silêncio, por isso, para se reconhecer as bênçãos auferidas desse amigo de tantos jovens que encontraram o conforto da paz nas suas mãos de luz.

domingo, 14 de junho de 2009

Lá qualquer dia

Emerson Monteiro

A função de escrever resulta, de tempos em tempos, nalgumas providências que independem da pura vontade individual. Quando menos se espera, volta a antiga pulsão de tanger no branco da folha palavras, as quais reunidas produzem sons inteligíveis para nós e para outros. Sons e pensamentos. Algo semelhante, quero crer, à disposição dos pássaros de trinarem no alto das árvores, isto sem que recebam comandos. As flores de se abrirem no vergel. Os sapos de croaxarem nos brejos. As lesmas de deixarem rastros brilhantes nas paredes. Etc. Nisso, retornam os questionamentos do que, em essência, satisfaz o viver de cada um.
Tempos atrás, coisa de poucos anos, andei lendo a propósito de uma nova disciplina que se desenvolve no Brasil, sobretudo para as bandas do Rio Grande do Sul. A Filosofia Clínica. Trata-se de jeito nascido nos cafés filosóficos de Paris, quando o conhecimento da Filosofia torna-se veículo suficiente a tratar de situações pessoais de conflito e instrumentar os clientes para, por si, responder às grandes questões pessoais da existência. Diante desse encaminhamento, encontram as soluções necessárias a viver em paz, conciliar-se com o universo em volta.
Na realidade, há que se achar o motivo do ato de conhecer. Afinal, na busca de explicação para o existir, nos deparamos com infinitos recursos através do estudo. Não fosse a tal maneira, para que tanto furor de pensar e aprofundar pesquisas quanto a alma?
Bom, as escolas religiosas atuais, ainda que busquem na oração, no trabalho, ritual, comunidades, multidões, meios de ampliar seu público para a Salvação, dispõe, nos inícios, das justificativas filosóficas necessárias a neutralizar as correntes contrárias e os adversários materialistas. Todas dispõem das bases doutrinárias que lhes dão respaldo, no correr das formações originais.
Haja um tempo de aprofundar perguntas e as grandes questões da existência (de onde viemos, o que estamos fazendo aqui e para onde vamos?, base primeira da Filosofia), e nuvens se condensam para chover conceitos fundamentais a estruturar o pensamento como um todo útil e necessário.
Nos mergulhos intensos das indagações, surge matéria prima às atitudes. Desde o modo niilista, do nada em troco de existir, o materialismo puro, ao misticismo extático, que justifica e conduz à perene felicidade, quando se apresenta o gosto religioso de caminhar nas trilhas deste mundo.
O importante nisso tudo representa a auto-suficiência que persistir e aceitar o veículo do pensamento qual fórmula clássica do encontro consigo próprio, com os outros e com a realidade viva da existência.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

LANÇAMENTO

A escritora lavrense, Rejane Monteiro Augusto Gonçalves lançará no dia 17 de junho, às 19 horas, no Ideal Clube o livro "Os Augustos". Ela complementa a obra iniciada por Joaryvar Macedo ,trazendo as informações atuais de uma das famílias mais tradicionais de Lavras da Mangabeira. O trabalho será apresentado pelo conterrâneo, escritor, poeta e idealizador da Academia L avrense de Letras, Dimas Macedo.


Os Augustos

Lavras é uma das cidades do Ceará de traço social mais sólido. E a sua história política é uma das mais fascinantes do Estado.

Capital do Vale do Salgado e porta de entrada para o Cariri, em seu solo cultivaram-se, à larga, o algodão e a rapadura, até meados do século precedente. E hoje ali se cultivam a memória do seu passado glorioso e o altíssimo abandono do seu patrimônio arquitetônico.

O município de Lavras, no entanto, caminha soberano para o seu segundo centenário, a perfazer-se a 20 de maio de 2016; três anos, portanto, após o quarto jubileu da sua freguesia, criada aos 30 de agosto de 1813.

São muitos os tesouros do seu contributo cultural. É terra de artistas famosos, quais Sinhá d’Amora, Gilberto Milfont, Aury Porto, Vicente de Paroca, Bruno Pedrosa e Nonato Luiz. E de escritores consagrados, oito deles na Academia Cearense de Letras. E mais: é pátria de três senadores, quatro ministros, cinco desembargadores, quinze deputados estaduais ou federais e quarenta e quatro sacerdores da ordem secular.

Fideralina Augusto Lima é a sua principal representação no plano mitológico e na política que se fez à margem dos partidos. A Família Augusto é o traço social icônico da sua genealogia. É a mais expressiva de todas as famílias do lugar. A mas alta. A que mais se distinguiu em honras e em grau de expressão no plano estadual.

Joaryvar Macedo, o autor deste livro, é o historiador mais destacado da velha Atenas Cearense; e Rejane Augusto é a continuadora da sua tradição.

Este livro – Os Augustos –, publicado, de primeiro, em 1971, faz-se agora revelado em 2ª edição (Fortaleza, Editora ABC, 2009), revista, reavaliada e atualizada pela paciência e a determinação de Rejane Augusto, encarnação da mulher lavrense que nunca deixou de pelejar.

Segue Rejane neste livro o seu intinerário: o coroamento dos seus projetos de pesquisa, que já montam a cinco, em volumes que estão de pé, honrando a tradição dos seus augustos ancestrais.

Louva-se, pois, a genealogia cearense com a reedição deste livro seminal, tecido com as linhas da história oral e ancestral e com a metodologia da pesquisa que se fia também na verificação dos registros mais originais.

Rejane e Joaryvar estão completamente inteiros neste livro; e a Família Augusto e os que a ela se achegaram, também. É parceria, portanto, que deve perdurar, referência que são esses Augustos da nossa mais viva e vera tradição.

Fortaleza, inverno de 2009

Dimas Macedo